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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2

Quando José Padilha anunciou que faria um segundo Tropa de Elite, eu confesso que temi. O primeiro filme foi algo que transcendeu as telas do cinema e passou a fazer parte do imaginário popular. Tropa, simbolizado pelo capitão Nascimento, não foi apenas um ótimo filme, repleto de frases que viraram bordões populares, mas também uma obra que contribuiu à reflexão sobre as causas e conseqüência da violência envolvendo a polícia, a corrupção do sistema e o tráfico de drogas.

Depois do primeiro Tropa, não vi mais, por exemplo, uma única passeata da classe média vestida de camiseta branca escrita PAZ e pedindo combate às drogas. O tapa na cara que o filme deu na hipocrisia deste tipo de manifestação sepultou novas iniciativas.

Felizmente, Tropa de Elite 2, não se revelou um erro. Pelo contrário, José Padilha e sua equipe mostraram, com indiscutível competência, que ainda tinham muita história para contar. De forma orgânica, o filme soa realmente como uma continuação relevante e com conteúdo, e não apenas um caça-níqueis a fim de engordar os bolsos dos produtores.

Passado cerca de treze anos após o primeiro, Tropa 2 tem seu ponto de partida numa rebelião em Bangu I, comandada pelo personagem de Seu Jorge. O capitão Nascimento, agora coronel, não está mais na linha de frente, que é liderada por Matias. Nascimento controla a operação pelo rádio e pelo monitor, numa primeira mudança marcante entre o filme anterior e o atual. Essa nova faceta, aliás, está explícita quando comparamos os cartazes das duas produções e observamos que a arma deu lugar ao rádio, o que simboliza, de certa forma, as diferenças entre o primeiro filme mais bélico e um segundo mais cerebral.

Após a operação no presídio, Nascimento é alçado à condição de subsecretário de segurança do Rio de Janeiro. "Eu caí para cima", como ele bem define sua nova situação, propiciada após uma efusiva manifestação pública de aprovação num sofisticado restaurante no qual se encontravam as principais autoridades da segurança carioca, que até minutos antes consideravam o coronel como assunto passado.

Uma vez ocupando um cargo burocrático na Secretaria de Segurança, o coronel se deparará com uma realidade que, mesmo com sua reconhecida astúcia, escapava-lhe. O Nascimento do primeiro filme até tinha uma consciência de seu papel na engrenagem do sistema que se alimentava e faturava com o tráfico, porém, ao tornar-se um dos homens de frente do governo, "chegar até onde um caveira nunca chegou", o herói se vê diante de uma estrutura que pensa em segurança apenas como um meio que justifique enriquecimento e financiamento de luxo e campanhas eleitorais, que mantenha os beneficiados no poder, num círculo vicioso e com alta capacidade de recriação.

Como "missão dada é missão cumprida", o coronel Nascimento monta uma máquina de guerra com o BOPE e, ao livrar as comunidades dos traficantes, acaba abrindo espaço para outro mal, talvez ainda maior: as milícias, formadas por policiais e apoiadas pelos políticos. Ele descobre que "o inimigo agora é outro", como explicita o slogan do filme.

A complexidade de Nascimento, o personagem que só pode ser "herói" num mundo violento como o nosso, ganha corpo pelo roteiro inteligente de José Padilha e Braulio Mantovani, mas se destaca mesmo é por mais uma atuação espetacular de Wagner Moura. Nascimento é um homem que tenta - ou pelo menos, pensa - sempre fazer o melhor, entretanto falha miseravelmente na vida pessoal. Separado da esposa, incapaz de se relacionar com o filho, ele ainda tem o desprazer de ver a ex unir-se a um de seus maiores críticos, o ativista dos direitos humanos e professor de História, Fraga. Na vida profissional, seu sucesso também é bastante relativo, pois sua tarefa de combate ao crime revela-se quase tão inútil quanto enxugar gelo. Wagner Moura consegue captar e passar todas as nuances do personagem, muitas vezes apenas com expressões faciais, nos brindando com o amadurecimento de um personagem não apenas do ponto de vista intelectual, mas também físico, que dá sinais de cansaço.

Chamo a atenção para a cena na qual um importante personagem diz ao coronel Nascimento que ele não o teria ajudado e a expressão de decepção encarnada por Wagner Moura é digna de aplausos. Naqueles não mais do que cinco segundos temos a nítida impressão que ele tem - e pode - dizer milhares de coisas, mas o protesto lhe atinge mais que qualquer tiro. Ali vemos um Nascimento com uma ponta de humanidade, sentindo um golpe.



O elenco, aliás, novamente preparado por Fátima Toledo, é um grande destaque. Todos estão muito bem, inclusive o canastrão André Mattos, que aqui serve perfeitamente ao papel de um deputado e apresentador de um programa de TV policial. O destaque maior, porém, além de Wagner Moura, claro, fica por conta de Sandro Rocha, encarnando o major Rocha. Coadjuvante no primeiro filme, ele agora é um dos destaques do filme, como o líder de uma milícia. A naturalidade com que ele encarna o papel realmente me impressionou e sua atuação faz com que o espectador realmente creia que ele é capaz de tudo o que se vê na tela, o que é absolutamente fundamental para o sucesso de um personagem.



Não sei dizer se Tropa 2 é superior ao primeiro. E nem acho que isso seja necessário, afinal os dois filmes não estão competindo, são complementares. Poderiam até ser vistos como um só. Esta continuação, assim como Nascimento, está mais madura, mas carece um pouco do vigor característico da juventude, que exalava na obra anterior, com os aspiras Matias e Neto.

De qualquer forma, Tropa 2 junta-se ao primeiro como obras fundamentais para qualquer cinéfilo e para quem gosta de debater e conhecer a sociedade através do cinema. Confesso que nada do que vi representado no filme me pareceu novidade, mas a maneira extremamente bem feita como é construída a história causa um impacto profundo na audiência. Vi isso em diversos conhecidos que viram o filme e se surpreenderam com o universo da obra.

Talvez a obra de Padilha, assim como o filme anterior, contribua para que as pessoas entendam que a violência é um problema muito complexo e está instalado em vários níveis da nossa sociedade, do mais alto ao mais humilde. E que resolvê-lo passa por questões muito maiores que a pura e simples repressão. Muitos assistem Tropa 2 e parecem descobrir, surpresos, que o inimigo não está no morro, na favela ou na periferia: está sim dando entrevista no Jornal Nacional e pedindo o seu voto.

8 participações eufórico melancólicas:

Sandro Batista disse...

Nossa... Depois dessa excelente resenha, acho que ver o filme é praticamente obrigatório! hehehehehehehehehe

Abração!

http://estacaoprimeiradosamba.blogspot.com/

Wellington disse...

O filme Tropa de Elite 2 com essa ideia de ir contra o sistema que está totalmente desvirtuado do propósito pelo qual foi criado é uma ideia muito boa, corajosa e original! ^^

Adorei seu post!

Abraços!

http://neowellblog.wordpress.com/

Isabela disse...

Parabens pelo texto!ótimo!

Bjs
isabela
http://hojeempauta1.blogspot.com

Aos seus ouvidos disse...

Realmente o filme é obrigatório!
Gostei do post. mesmo sem me interessar por critica de cinema.
Parabéns!

circulospsicodelicos disse...

Vou dizer que não li até o final. Apenas os primeiros parágrafos.
Ainda não assistir o filme e quero ter surpresa ao assistir. Acho que se eu ler o resumo do filme, na hora que for assistir mesmo, não terei mais tanta expectativa, e Tropa de Elite foi o melhor filme brasileiro de persistência que eu já vi.

Nicelle Almeida disse...

Nossa, que excelente texto! Além de muito bem escrito, contém uma riqueza de detalhes incrível, o que deixa o leitor que ainda n assistiu ao filme (pelo menos eu me senti assim) com muita vontade de ver.
Parabéns pelo post!
Depois que eu assistir, volto aqui pra ler novamente ;)
Um forte abraço!
www.nicellealmeida.blogspot.com

Millena Blogueira disse...

Não vi o um e acho que não vou ver o dois.

NodirectionHome disse...

Realmente a participação de André Mattos foi incondicional..um personagem carismatico q motivou grandes risos nas salas e comentários posteriores...ótimo filme...por enquanto levando oscar brasileiro!!com todo merecimento...Parabéns pelo blog\O

http://semdirecaopracasa.blogspot.com