Lula, o filho do Brasil, foi concebido para ser um blockbuster, no entanto, acabou sendo um relativo fracasso. Dos anunciados e esperados seis milhões de espectadores, em torno de um milhão se dirigiu às salas de cinema. A distância tão longa entre projeção e realidade foi causada por equívocos no marketing (como a exibição antecipada no Festival de Brasília), na estimativa exagerada, no verdadeiro massacre promovido via imprensa, que colou o rótulo de propaganda política à obra e, claro, pela própria qualidade do filme.A escolha da data de lançamento, ainda em pleno governo Lula, pareceu-me inadequada. O presidente está concluindo seu segundo mandato, justamente o período no qual os governantes têm queda, com cerca de 90% de aprovação popular. Para estas eleições, ele não era candidato. O filme é sobre sua infância até o período em que se torna líder metalúrgico. Porém, a imprensa direcionou um verdadeiro arsenal ao filme de Fabio Barreto, classificando-o como peça de propaganda política visando o pleito de 2010. Lula se tornou um daqueles filmes que as pessoas não assistem e, mesmo assim, não gostam. A antipatia pela obra já estava consolidada mesmo antes de sua estréia, após a desastrada exibição em Brasília, muito anterior à estréia oficial, permitindo o massacre.
O contexto não transformava Lula num filme de propaganda. Qualquer um que deixasse a antipatia de lado, perceberia isso facilmente. Não dessa eleição. Líder de influência mundial, Lula não precisava de um filme dos Barreto para aumentar seu cacife junto ao público. Pelo contrário, eram os produtores quem precisavam do presidente para transformarem sua obra num sucesso.
Como filme, Lula, o filho do Brasil, é uma obra menor. É um marco na fraca carreira de Fábio Barreto (o outro é Quatrilho, inferior a este), entretanto isso representa pouco. O orçamento de mais de dez milhões, bancado sem a participação da Lei de Incentivo (como o filme explicita nos créditos iniciais), parece que não foi usado da forma mais correta. A trajetória do menino pernambucano que foi para São Paulo num pau-de-arara, tornou-se torneiro mecânico, líder sindical e presidente é apresentada de maneira episódica. Ainda que opte por apresentar a vida de Lula até sua participação no sindicato dos metalúrgicos, o filme carece de organicidade, despejando eventos atrás de eventos nas suas mais de duas horas.A ascensão de trabalhador que não queria saber de política à condição de líder sindical capaz de promover assembléias de até cem mil pessoas é representada de maneira superficial, principalmente pelo pouco desenvolvimento dos demais personagens e das influências políticas do então operário. A família de Lula, a exceção de seu irmão Ziza, que o leva à vida sindical, e de sua mãe, dona Lindu, é ignorada. Os companheiros de trajetória sindical, idem. A primeira esposa, interpretada por Cleo Pires, cuja tragédia pessoal deve ter marcado severamente a personalidade do presidente, é uma personagem opaca. Dona Marisa, atual primeira dama, também não passa do trivial.
Por outro lado, Lula, o filho do Brasil, poderia se chamar O filho de dona Lindu. O filme como um todo, e na sua primeira metade em particular, é sobre a mãe de Lula. Interpretada magnificamente por Gloria Pires, ela exibe uma força que realmente cativa não apenas sua família nas telas, mas também o espectador. Os momentos que o filme consegue emocionar são aqueles que Gloria Pires demonstra orgulho pelas conquistas do filho, como a formatura no curso de torneiro mecânico, ou o apóia nos momentos difíceis, como no acidente que custou-lhe um dos dedos da mão.O intérprete de Lula, Rui Ricardo Dias, é outro elemento de destaque do filme. A composição, que cuida, inclusive, de destacar cuidadosamente a "língua presa" do atual presidente, é digna de elogios. O ator conseguiu transmitir peso ao papel e não ser engolido por ele, risco que corria, dado ao fato de Lula ser uma figura recorrentemente imitada, especialmente por comediantes, o que poderia tornar caricato qualquer excesso.

Luis Inácio Lula da Silva tem lugar de destaque em qualquer lista dos brasileiros mais importantes do século XX. Já neste, posso afirmar, sem sombra de dúvida, que é o brasileiro da década. A sua trajetória é recheada de simbolismos e estará marcado, para sempre, como o primeiro brasileiro oriundo da classe trabalhadora a se tornar presidente. A despeito de ter sido uma das figuras públicas de nossa história mais criticadas (e até ridicularizadas) e vítima de preconceitos, pela origem, jeito de falar, preferências, atitudes, ele superou todas as adversidades e se colocou como um indiscutível líder popular, reconhecido, hoje, não apenas pela população brasileira, mas também no resto do planeta. Teve participação ativa no fortalecimento das lutas trabalhistas e no retorno da democracia ao país, que hoje, tolamente, a imprensa o acusa de tentar destruir.
Cientes desse sucesso do Lula presidente mundo afora, Lula, o filme, foi indicado como representante brasileiro a tentar uma indicação ao Oscar. Como o prêmio da indústria cinematográfica estadunidense tem muito de política, é até possível que consiga uma vaga entre os finalistas, porém vencer seria um disparate.
O distanciamento histórico ainda se encarregará de avaliar a Era Lula. Por isso, com toda certeza, ainda veremos cinebiografias a seu respeito e poderemos ter, então, uma obra mais complexa, densa e madura, tanto do ponto de vista pessoal quanto político, do que foi o filme de Barreto, que apesar de ter seus méritos e não poder ser classificado como tempo perdido, está muito aquém das possibilidades que seu representado oferece.
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