Nos últimos 90 dias publiquei apenas dois posts neste blog. Há quase 60 não escrevia nada. Algumas pessoas me mandaram mensagens perguntando se eu tinha desistido do Euforia Melancólica.
Não desisti.
A razão de passar pouco por aqui tem um nome: doutorado.
É muito complicado virar "doutor" no Brasil. São muitas as exigências e poucos os estímulos. Ingressei há pouco mais de quatro anos no doutorado, com planos absolutamente diferentes daqueles que o futuro acabou reservando. Eu já deveria ter previsto, afinal de contas, eu vivo dizendo que "expectativas normalmente levam a frustrações".
O fato é que uma diferença pessoal levada ao nível acadêmico acabou me custando a possibilidade de conseguir uma bolsa. Comprei uma briga que nem era minha, critiquei quando deveria ter ficado quieto e perdi a chance de poder me dedicar integralmente à minha tese. Sem esse suporte financeiro, tive que trabalhar durante todos esses anos, no mínimo, quarenta horas semanais. Muitas vezes mais. E, como me disse a pessoa que me tirou as chances de conseguir uma bolsa, "nunca conheci ninguém que trabalhando 40 horas concluiu um doutorado".
Eu também não. É muito difícil. Quem tem uma experiência universitária sabe que um Trabalho de Conclusão de Curso já é algo que esquenta a cabeça. Uma dissertação de mestrado leva o sujeito à loucura. Uma tese de doutorado então, é pedir para ser internado e não sair mais. Obras acadêmicas, de uma maneira geral, o sujeito não termina, ele abandona, porque quanto mais se pesquisa, mais se descobrem coisas, logo a sensação do prazer em produzir é acompanhada de uma angústia pelas limitações, sejam de tempo, acesso às fontes ou mesmo de incapacidade intelectual.
Por esse fator da bolsa, além de outros que não cabe aqui detalhar, acabei me desmotivando muito com a História como um todo e o doutorado em particular. Cheguei a trancar por um ano e cogitei seriamente a possibilidade de desistir. Não o fiz porque não costumo desistir dos projetos facilmente, além, é claro, de entender que o título pode ser muito importante no futuro, ainda que já não seja mais algo tão exclusivo.
Esse ano voltei a trabalhar de forma disciplinada e sistemática na minha tese. Desde janeiro estou tentando recuperar o tempo, porém é muito complicado. Trabalhar o dia inteiro, dar atenção à família, cumprir todos os demais compromissos que a vida nos impõe e nesse meio tempo achar motivação, concentração e criatividade para escrever uma tese é um desafio portentoso. Às vezes, fico horas olhando para a tela do computador, cursor piscando e nada de escrever. Outras, escrevo muito, fico empolgado e quando vou conferir vejo que o marcador do Word diz que avancei apenas três páginas. "Tem certeza?", pergunto para o programa, como se ele fosse me responder. E os livros? Uma leitura puxa outra, que traz um novo fichamento e tudo isso toma muito tempo. Sem falar em notas de rodapé e citações, intermináveis. E as normas da ABNT, lógico, essas companheiras inseparáveis.
Há meses praticamente só assisto aos filmes relativos ao meu tema de pesquisa. Livros, então, só li sobre cinema. Mesmo assim, praticamente todos os meus prazos se encerraram ou estão no limite. É bem possível que todo o esforço que estou fazendo seja em vão e eu acabe sendo desligado do programa de pós graduação. De qualquer forma, continuarei nessa rotina por mais algum tempo, tentando passar pela qualificação. Se conseguir, ganho uma sobrevida, que me dará mais um ano e meio, mais ou menos, até a defesa pública. Caso tudo corra bem, lá por 2011 pode ser que eu seja um "dotô".
O bonequinho viu: 2012
2 horas atrás



4 participações eufórico melancólicas:
Entendo perfeitamente sua angústia enquanto doutorando, sobretudo em se tratando de Brasil, onde somente os pesquisadores aprovados com as melhores notas têm direito ao benefício de uma bolsa de estudos e ainda tendo que manter uma política de 'puxa-saquismo' de alguns professores.
Tendo família e trabalhando 8 horas por dia, acho desumano o que está tentando terminar.
É uma questão delicadíssima.
Espero que escreva um livro também caso consiga alcançar seu objetivo final pesquisando com toda essa infra-estrutura contra.
No mais, se eu fosse você,
tentaria organizar minha vida com o intuito de concluir o doutorado e abdicando de outras 'prioridades'. Afinal, quatro anos já foram vencidos.
Sucesso!
Também tenho escrito pouco no meu blog e visitado outros por conta da faculdade.
Estou no segundo período de Comunicação Social e ontem fiquei até três da manhã fazendo um trabalho com um estresse que não sentia há muito tempo... isso é coisa pequena, né? Digo, no futuro será pior, né?
Olha, confesso que não sei direito o que te dizer. Não penso em nada além de "boa sorte", "estou torcendo por você" entre outros. Sim, pode parecer meio falso, mas não é...
Você tem toda razão. Quando fiz meu mestrado quase fui à loucura mesmo. Acho que por essas e por outras que quando animo a ir para o doutorado (já fiz duas disciplinas isoladas), penso em tudo e desisto antes mesmo de começar...
Espero ver sua tese, que deve ser muito interessante!
Tudo de bom nessa trajetória.
É... tem que gostar mto de estudar e ter muita persistência nessa jornada. Desejo boa sorte e felicidade. Beijos! :o)
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