Esta crítica contêm spoilers.Eu imagino que o
Frank Darabont tenha uma pontinha de frustração. Em 1994, ele surpreendeu o mundo com um filme absolutamente fantástico, chamado
Um Sonho de Liberdade. Poderia ter sido a grande obra do ano (e, para muita gente, foi). Porém, para o "azar" de Frank, 1994 foi também o ano de dois dos mais importantes filmes da década de 90: Forrest Gump, grande vencedor do
Oscar de 1995, que se tornou um fenômeno pop; e Pulp Fiction, que além de também ter se tornado um fenômeno pop, passou a integrar quase todas as listas dos melhores filmes da história. Darabont, coitado, "ensanduichado" entre esses dois, acabou sendo ignorado até mesmo na indicação de diretor ao Oscar.
Cinco anos mais tarde e Frank Darabont ressurgiu com outro filme acima da média. Emocionante e muito bem construído,
À Espera de um Milagre, assim com
Um Sonho de Liberdade, marcou seu momento na história do cinema, mas não chegou ao êxito que talvez merecesse. No
Oscar de 2000, por exemplo, acabou derrotado por
Beleza Americana, que caiu nas graças da crítica estadunidense e da Academia de Hollywood.
Beleza é também um ótimo filme, e ainda havia entre os concorrentes
O Informante, para mim o melhor deles.
Assim, suponho que ele tenha uma certa frustração por ter feito dois filmes tão bons em anos que outros fizeram obras tão boas ou melhores, diminuindo, em parte, a força e a repercussão de seu trabalho. Apenas a título de comparação, usando apenas o Oscar como parâmetro, tanto À Espera de Um Milagre quanto Um Sonho de Liberdade são infinitamente superiores a Paciente Inglês ou Quem Quer Ser Um Milionário?, filmes que ganharam muitas estatuetas em anos de concorrência não tão acirrada.

Especulada esta frustração que eu imagino que ele tenha, vejo com alegria que Darabont retornou aos noticiários com a produção da série
The Walking Dead, baseada na graphic novel do mesmo nome. Alardeada como a série que pode ocupar o lugar de Lost no coração da cultura pop, estreou com sucesso nos Estados Unidos, garantindo, após a exibição de três episódios, uma segunda temporada, possivelmente a partir de outubro de 2011, com mais treze.
Não li os quadrinhos, mas não é algo que me preocupe. Ter lido poderia tornar a experiência de assistir a série mais rica, porém são veículos diferentes e que
devem funcionar mesmo sem conjugação. Mesmo quem nunca leu a graphic novel deve poder compreender perfeitamente a série e isso, obviamente, é algo que os produtores têm exata noção.
Vi os três primeiros episódios, que somam, portanto, 50% da primeira temporada. Gosto de filmes de horror, de zumbis (que, dizem, é a nova aposta de Hollywood, pós vampiros), apesar de não ser exatamente um fã. E gostei do que
The Walking Dead mostrou nesse começo, porém considerei o episódio piloto - o único dirigido por Darabont - muito superior aos dois seguintes, o que me gera dúvidas em relação a qualidade do que virá pela frente.

No primeiro episódio, fomos apresentados a Rick, um policial que surge, em suas primeiras cenas, atirando na cabeça de uma criança-zumbi, o que mostra que a série não fará concessões ao mostrar situações limite. Após ser baleado num tiroteio, Rick é internado e, ao despertar do coma, depara-se não apenas com o hospital destruído, mas também toda a cidade, na qual se exibem, além de prédios e carros destruídos, centenas de corpos espalhados pelas ruas.
O ponto de partida é exatamente o mesmo de
Extermínio, de Danny Boyle, um ótimo filme do gênero. Como Rick conseguiu ser o único sobrevivente no hospital, ainda mais estando indefeso, é algo que a série não explica. Assim como também não é explicada a origem dos zumbis. Acredito que estas serão duas questões que ficarão sem respostas e nem acho mesmo que elas sejam necessárias.
Perdido em meio ao novo mundo com qual se depara, Rick chega até a se questionar se está mesmo vivo ou se está sonhando. Em busca da esposa e do filho, é acolhido por James, um senhor que tenta sobreviver ao lado do filho, enquanto é corroído pela dor de ver a esposa transformada em zumbi vagando pela rua defronte sua casa. James e seu filho são ótimos personagens e devem retonar em episódios futuros. Talvez o melhor momento do primeiro episódio tenha sido protagonizado justamente por James: o treinamento de sniper na janela, hesitando entre matar a esposa ou não, entre livrá-la (ou seria livrá-lo?) do sofrimento.
James, entretanto, é um coadjuvante. A série é protagonizada por um triângulo amoroso

que, por enquanto, ainda não está totalmente revelado aos personagens: Rick, sua esposa Lori e seu parceiro policial, Shane. Aliás, o início,
a la Tarantino, numa conversa na patrulha comendo hamburguer e discutindo relacionamento, estabelece a base para que conheçamos os três e saibamos dos problemas conjugais. Nesse sentido,
The Walking Dead deve repetir aquilo que muito se falava - e se falou, principalmente após o término - de
Lost, ou seja, que não era uma série de ação ou mistério, mas sim sobre pessoas. Na obra de Darabont, os zumbis são um pretexto, um pano de fundo no mundo devastado, para contar a trama de pessoas em busca de sobrevivência, convivendo com as diferenças, limitações e equívocos. Sendo assim, o tom do episódio piloto indicou muito mais uma série dramática que de horror.

Curiosamente, esse tom não foi mantido no segundo episódio, voltando à tona, não com a força do piloto, no terceiro. No episódio 02, o mais fraco até agora, o foco é na ação e na apresentação de novos personagens, vários deles. Acho que essa necessidade/opção gerou muito material para pouco mais de quarenta minutos e o ritmo até certo ponto contemplativo do primeiro virou rapidez no segundo. Particularmente, não gostei da fuga do tanque até a loja e nem do que veio depois. Não que não goste de cenas assim, é que achei as de
The Walking Dead exageradas e até certo ponto repetitivas quando comparadas a muito do que já vimos por aí. Rick saiu da condição de policial para quase super-homem, seu novo amigo Glenn é não apenas um cara esperto que conhece os atalhos, é

também um motorista de primeira linha e os zumbis me soaram palermas demais, ao terem tanta dificuldade, mesmo estando em dezenas, de quebrarem as portas de vidro da loja, assim como as portas e grades com cadeados. Falando em cadeado, a chave da algema caindo no ralo também foi um clichê conveniente e desnecessário. E, apesar da atuação convincente, não gostei muito de ver, mais uma vez, o Michael Rooker (Merle) fazendo papel de maluco.
No terceiro episódio. o ritmo foi mais semelhante ao do primeiro, centrando as ações no reencontro de Rick com sua família no acampamento, o desconforto de Shane, talvez feliz com o retorno do amigo, mas triste por ter sido relegado ao segundo plano no papel de marido e pai que vinha ocupando para Lori e Carl. Também conhecemos o irmão de Merle e fomos informados que os zumbis estão mais próximos do acampamento, o que imagino, deve gerar novas situações de confronto, como a vista neste. Ed foi outro personagem que ganhou algum destaque, primeiro insistindo em manter chamas que poderiam denunciar o local do refúgio e depois pela briga com as mulheres no rio, que acabou levando Shane a espancá-lo violentamente. Ed, ao que tudo indica, bate e abusa da mulher e da filha, o que deve ser mais um drama a ser desenvolvido na série.

Os personagens, é claro, ainda estão muito crus. Exceção feita a Rick e a marcante passagem de James no primeiro episódio, os demais ainda são superficiais, não foram explorados mais a fundo e nem revelaram, a não ser em pequenos momentos, suas personalidades. A esposa de Rick até o momento só gerou antipatia e o filho também não teve grandes momentos, a não ser o reencontro com o pai. Aliás, o desejo de todos voltarem para tentar salvar Merle foi um tanto quanto incompreensível, tratando-se de todo o trabalho que tiveram para escapar, tema de todo o segundo episódio. Considerei a iniciativa forçada e a justificativa da bolsa de armas e o rádio para localizar James um tanto quanto implausíveis, ainda que o objetivo seja passar uma reflexão entre o resto de humanidade e compaixão que se tenha mesmo num mundo devastado.
A pacífica concordância de Carl para que seu pai retorne à cidade foi decepcionante. Que filho, em sã consciência, ainda que seja uma criança (ou talvez por isso mesmo) aceitará com um sorriso no rosto que seu pai, apenas algumas horas depois de encontrá-lo, um pai que se pensava morto, volte ao lugar do qual acabou de escapar e no qual quase morreu?! Para justificar essa tranquilidade, os roteiristas criaram um diálogo entre Carl e Lori que beira o ridículo, mais parecendo aqueles conselhos de mãe, quando dizem que "se for para ser, vai ser".
Por fim, o clichê da mão serrada e pendurada encerrou um episódio inferior ao piloto, mas promissor em relação ao que pode vir, ainda que, torno a afirmar, tenha sido preocupante o fato dos dois episódios seguintes tão abaixo do original. Incomodou-me, também, que a série tenha sido, até essa metade, previsível. Assistindo, consegui "antecipar" mentalmente tudo que aconteceria, numa sequência que se confirmou na tela. Ainda que uma obra não precise ser revolucionária, ela precisa nos surpreender, reiventar-se e reinventar o tema que está tratando. Do contrário, pode parecer velha como a aparência dos zumbis que vagueiam por Atlanta.