A felicidade é uma das obsessões da sociedade moderna. Hoje em dia, provavelmente mais que em qualquer outro período da história, temos a obrigação de ser feliz. Nos últimos dias, a Patrycia escreveu um post perguntando o que causava felicidade e o Euzer refletiu em seu blog sobre o casamento e a felicidade aparente. Este é um tema recorrente à sociedade moderna e que, confesso, também ocupa meus pensamentos vez ou outra.
Sou um dos que defendem a idéia que existem momentos felizes, mas que ninguém é feliz o tempo todo. Sempre duvido daquelas pessoas que aparecem sorridentes, que se dizem "muito felizes", que a "vida é maravilhosa" e assim por diante. Duvido também daqueles que já estão felizes às 7 horas da manhã, cantarolando pelos cantos. Ninguém pode ser feliz tão cedo.
Com o mundo que temos, só os alienados podem se dizer completamente felizes.
Existem diversas formas de se buscar a felicidade e ela é diferente para todos. Nem mesmo um prêmio de Mega Sena acumulada é garantia de trazê-la. Cada um sabe de seus calos e onde o sapato aperta, por isso é extremamente irritante os tradicionais julgamentos que se fazem do gênero "fulano tem isso, tem aquilo, como pode estar triste?".
Duas associações à felicidade são básicas na nossa sociedade: bens materiais e relacionamento amoroso. A maioria quer carro, casa, viajar nas férias, aparelhos de última geração, que geralmente trazem a felicidade efêmera da conquista, porém a médio e longo prazo são sempre revistas porque enjoam e então são necessários carros mais novos, reformas ou casas maiores e assim por diante.
Sobre os relacionamentos amorosos, o casamento é o ápice. De volta à moda, possivelmente mais pelo "show" que as festas têm se tornado e menos pelo sentimento envolvido, casar é, ao mesmo tempo, um dos maiores exercícios de generosidade e egoísmo que alguém pode ter. Contraditório? Com certeza, mas a vida é assim. Generoso, porque você passa a viver sua vida em dupla, por mais liberdade às diferenças e respeito mútuo, o casamento é uma sociedade na qual o sócio dorme e acorda com você. Portanto, inevitavelmente, sua cabeça, para muitas coisas, pensa por dois e você deixa de fazer determinadas coisas ou faz outras que não gosta porque sua parceira quer. E é egoísta também a partir do momento que, em vários sentidos, você se fecha ao mundo e, naturalmente, restringe-se mais ao seu núcleo familiar.
O sonho, no entanto, rapidamente dá lugar à realidade e isso explica o porque daquelas megas festas com declarações mútuas de amor eterno terminarem em briga no cartório. Quando digo que uma das minhas frases preferidas é "expectativas normalmente levam a frustrações" é porque a realidade nunca é igual ao sonho e baixar as expectativas pode ser uma forma muito eficaz de sofrer menos com a vida. Na idealização, o príncipe encantado não peida embaixo da coberta e a princesa não acorda descabelada; na vida real ele quer comprar um notebook e ela quer reformar o banheiro; ele quer jogar futebol e ela visitar a prima; ele quer dormir tarde e ela cedo e ele quer acordar tarde, mas ela faz faxina cedo e irrita-se por que ele não vê sentido em perder um feriado encerando o chão; na idealização, os filhos não choram a madrugada inteira e nessa mesma idealização o príncipe não precisa ter dois ou três empregos e a princesa não vira outra pessoa quando está na TPM.
É, portanto, uma experiência árida. Romantismo de lado, o casamento é uma sociedade, que exige muita negociação. Não raro, por isso, vermos os casais que estão juntos há tempos viverem numa espécie de "piloto automático". Muitos dão a impressão de estarem unidos mais por comodismo que qualquer outra coisa. Talvez isso seja o amor, a união da paixão inicial com a amizade pela convivência.
A ditadura da alegria, a busca incessante por essa tal felicidade, acho que só piora as coisas. Essa obrigação de ser feliz, ser bem sucedido em tudo, sorrir com vontade, ser popular e admirado, ter orgasmos múltiplos e impressionar a família, isso arrebenta com o mundo. Baixemos as expectativas e nos conformemos com momentos felizes. Se você tem muitos deles, agradeça, é um privilegiado. Na média, eu acho que sou.
Sexta-feira, 23 de Maio de 2008
Essa tal felicidade
Terça-feira, 20 de Maio de 2008
Respondendo 2 memes
O primeiro veio do Tiago, do Dó.Ré.Mi.Fá.Sol.Lá.Si:
1 - Qual é a sua palavra favorita?
Saudade
2 - Qual é a palavra que você menos gosta?
Dívida
3 - Qual é o seu som favorito?
O do mar
4 - Qual é o som que você mais odeia?
Buzina
5 - Qual é o seu palavrão favorito?
Parafraseando Millôr, nada substitui o poder libertador de um "foda-se"
6 - O que te anima?
Um sorriso dela
7 - O que te repugna?
Gente que fala demais
8 - Qual profissão, diferente da sua, você gostaria de ter?
Jogador de futebol
9 - Qual profissão você nunca gostaria de ter?
Limpador de fossa
10 - Se existir o Paraíso, o que você gostaria de ouvir Deus te dizendo quando você chegasse na porta do Céu?
"Volta"
O segundo veio também de um Thiago, com "h", do Cansei de Ser Cult, no qual devo listar 5 pessoas que eu gostaria de socar. Na verdade, tem mais, porém seguem os nomes:
1 - Kleber Leite
2 - Marcelinho Carioca
3 - Xuxa
4 - Junior (da Sandy)
5 - Cabañas
Quinta-feira, 15 de Maio de 2008
Comedores de sardinha
Os reality shows não são tipos de programas que me agradem. O maior expoente desse segmento, o Big Brother, até tem uma premissa sociológica interessante - reunir "pessoas comuns" numa casa e observar essa convivência - porém foi tão desvirtualizado, transformado em novelinha, aprisionando os participantes em personagens, que qualquer possibilidade de se fazer um bom programa foi por água abaixo.
Sexta-feira, 9 de Maio de 2008
"Não sou eu que limpo"
Houve uma época da minha vida em que morei num apartamento com sacada. Em algumas oportunidades (não muitas) eu chamei a atenção de pessoas que passavam em frente e jogavam lixo na rua. Pode parecer uma coisa meio esquisita, de aposentado que gosta de chatear os outros, mas eu fazia, de certa forma cumprindo uma missão social (era uma época pré-burguês safado).
O sujeito jogava o papel no chão e eu gritava lá de cima: "pra que sujar a rua?". A maioria sentia-se envergonhada, pega de surpresa como uma criança que acabara de fazer uma travessura e recolhia o objeto da discórdia. Outras vezes, óbvio, eu fui ignorado ou ouvi coisas do tipo "o que você tem com isso?", "vai achar o que fazer" ou ainda "cuide da sua vida". Além dos impropérios ditos em tom mais baixo, abafado pelos sons da rua, mas que os garotos leitores labiais do Fantástico provavelmente traduziriam com um pi....
Uma entre tantas respostas, porém, marcou-me na lembrança. Uma criança, dessas que não parecem ser de rua, mas que ficam passando de porta em porta perguntando se não tem "coisinhapadá", estava emporcalhando a rua em frente ao prédio, quando eu gritei lá de cima. Sem aparentar nenhuma culpa, ela virou para mim e lascou uma frase cruel: "Não sou eu que limpo".
Simples e direto.
A carga simbólica desta frase é devastadora. Esse garotinho é a síntese de boa parte do espírito brasileiro, apesar de que eu odeio generalizações, pois sei que elas são injustas. Porém, é inegável que uma parcela razoável de nossa população segue exatamente essa linha de pensamento, ou seja, não importa se vou sujar, não me importa tomar partido, não quero nem saber do que se trata, pouco me interessa as consequências sociais dos meus atos, afinal de contas, "não sou eu que limpo".
Quinta-feira, 8 de Maio de 2008
Rápido registro de uma tragédia
Semana atribuladíssima, sem tempo para postar, nem responder os comentários.
Apenas posto agora, em plena madruga - 03:38h - para deixar registrada a derrota do Flamengo para o América do México por 3x0, no Maracanã, naquela que se configura como a maior vergonha de sua história.
Post super-hiper-mega pessoal. Ninguém precisa comentar, só quero deixar registrado na história desse blog. Quem me conhece pessoalmente, sabe como estou me sentindo. Frustração total. Eu ainda perco o sono por causa destes vagabundos milionários, que ganham, num mês, fortunas que eu não ganharei na vida inteira e não sabem dominar uma bola.
Mas um dia eu aprendo.
Sábado, 3 de Maio de 2008
A "polêmica" dos selos
Com certo atraso, agradeço a indicação de mais um selo, desta vez por parte do blog Só na Cachaça. Tenho de repassá-lo a mais dois, então usarei como critério o fato de ter vindo de um blog cujo foco principal é o humor para indicar outros dois que seguem (mais ou menos) a mesma linha: o Esfiha Berta e o Barulho de Grilo.
Terça-feira, 29 de Abril de 2008
Façam suas apostas
Escolha uma das opções abaixo.
O que veremos nas próximas duas semanas?
( ) Um novo "escândalo" político visando minar a popularidade do presidente Lula;
( ) Romário anunciando seu retorno aos gramados;
( ) Algum banco divulgando lucro recorde de mais de 3 bilhões no primeiro trimestre;
( ) O esquecimento do caso Isabella;
( ) Os travestis que se envolveram com Ronaldo sendo entrevistados no programa da Luciana Gimenez.
Segunda-feira, 28 de Abril de 2008
A Ilha - fábula da solidão
Era uma ilha muito pequena. Havia nela, mais ou menos no seu meio, alguns coqueiros. Era habitada por uma única pessoa, um náufrago, que aportou ali após um acidente de seu navio, no qual todos os tripulantes perderam-se pelo caminho.
Em meio aos coqueiros ele criou condições para sua sobrevivência, protegendo-se da chuva, do vento, do sol. Para comer, ele pescava, depois limpava o peixe e assava, fazendo fogo com galhos entre pedras. Para beber, ele tomava água dos cocos, que estavam nos coqueiros. Aguardava sem pressa, pacientemente, o dia em que o socorro o tiraria dali e o levaria de volta à vida.
Mesmo sozinho, todas as manhãs ele acordava cedo, praticava exercícios, corria em torno da ilha. Suado, cansado, esbaforido, ele tomava banho no mar salgado e retornava à sua “biblioteca”, onde havia um baú cheio de livros. Ele então lia ininterruptamente até a hora de pescar, de assar o peixe, de comer e de beber a água que vinha do coco.
Num determinado dia, no período da tarde, enquanto refletia sentado numa pedra, sobre o porquê do socorro demorar tanto e o que faria para mudar a sua vida, ele avistou algo vindo em direção à ilha. Era uma pequena embarcação e nela havia uma mulher e um homem. O bote aproximou-se da ilha, o homem e a mulher saltaram e falaram quase ao mesmo tempo. Eram como o primeiro habitante da ilha, náufragos. A diferença é que formavam um par, ainda que isolados.
O casal por ali se abancou. A mulher assava o peixe, que o marido pescava, e ambos bebiam a água que vinha dos cocos. O antigo morador cedeu um pouco do seu espaço e, mesmo contrariado, tentava conviver com a nova situação. A repentina falta de liberdade o fizera mudar de humor e refrear um pouco os hábitos. Deixou de fazer exercícios e lia com menos freqüência. A sociedade agora formada exigia-lhe novas atribuições e responsabilidades.
O casal fazia amor quase todas as noites, às vezes durante as manhãs, e com alguma freqüência durante as tardes. Às vezes, faziam amor com entusiasmo, mas muitas vezes era também mecânico e previsível, e quando terminavam era como se nada tivesse acontecido.
O primeiro habitante fez aniversário, mas ninguém lhe parabenizou, porque ninguém sabia. O casal e ele, ao contrário do que a relação amistosa do início sugeriu, não desenvolveram uma amizade. Viviam agora separados, mesmo que sob o mesmo céu e sobre a mesma terra. Não havia entre eles diálogo, comunicação. Ele tinha idéias e argumentos muito diferentes dos do casal, e a convivência foi tornando-se insuportável. Enquanto isso ele olhava para o infinito, para a linha do horizonte e esticava as mãos para o vazio, como que tentando alcançar ajuda.
O casal agora ocupava a metade leste da ilha e ele a porção oeste. Mas ele não suportava mais aquilo. Queria novamente que o espaço inteiro fosse só seu, sem concessões ou partilhas. Ficou então observando detalhadamente a rotina do casal, marcando os seus hábitos, para ele incompreensíveis. Certo dia o casal fez amor, com entusiasmo e alegria, pareciam felizes. Depois do sexo deitaram-se extenuados, lado a lado, nus, sem preocupações, deixando que o sol bronzeasse seus corpos. O homem então se aproximou deles sorrateiramente e, com uma pedra, esmagou o rosto do outro homem. A mulher acordou, mas não teve tempo de evitar que o seu rosto também fosse esmagado.
O homem jogou os corpos no mar. Voltou para o seu lado da ilha e começou a ler, esperando pela ajuda, que ele não entendia, nunca chegava. No mar, o corpo do casal se decomporia e viraria comida de peixe, que seria pescado, assado e comido, junto com a água que vinha dos cocos.
Quinta-feira, 24 de Abril de 2008
Rapidinhas
Não encontrei ninguém - absolutamente ninguém - na internet ou no mundo real que estivesse com um pingo de dó que fosse do padre Adelir, o "padre voador" como chegaram a citar os jornais. Pelo contrário. Vi as pessoas lamentando a quantidade de recursos e seus altos custos empregados na tentativa do improvável resgate. Na net, pipocam piadas, especialmente as visuais, por todos os lados. Essa imagem ao lado é uma e vi no Navegando à Toa, onde outras tantas estão disponíveis.
Terça-feira, 22 de Abril de 2008
A família está perdida?
Família, família
Janta junto todo dia
Nunca perde essa mania
Foi-se o tempo em que as famílias faziam suas refeições juntas todos os dias. Dizem que a televisão foi a primeira a acabar com isso. Antes reunidos em torno da mesa, com o advento da TV todos passaram a desviar o olhar para outro foco, aquela caixinha brilhante e animada. Os filhos levavam os pratos para pôr sobre o colo e comerem diante de seus programas preferidos. Os pais repetiam ritual semelhante.
Hoje, as classes mais abastadas têm TVs pela casa inteira - até no banheiro - além de computadores, aparelhos de som, DVDs, vídeogames e assim por diante. Diversos são os atrativos e todos eles parecem ser mais interessantes que uma refeição em família.
Quer dizer que a culpada por este fenômeno da "desestruturação" familiar é a tecnologia? Óbvio que não, afirmar isso seria, além de inverdade, uma idiotice. É um dos fatores, tem sua parcela de influência, mas é apenas uma peça desse mosaico. As razões vão muito além. Podíamos acrescentar o massacre da vida moderna, as mudanças de valores ao longo dos anos, as influências religiosas (positivas ou não), as transformações sociais, o pavor da palavra "disciplina". A lista é enorme. Lendo aí do outro lado do monitor, provavelmente você é capaz de adicionar outros que eu nem mesmo imaginei ou talvez ainda nem concorde quando falo em "desestruturação" familiar.
É realmente um tema muito complexo e qualquer abordagem de alguns parágrafos num blog, fatalmente, soará superficial. Porém, é um tema que me preocupa. Se partirmos do pressuposto que há uma "desestruturação", devemos aceitar que antes ela era "estruturada", o que possivelmente não seja de todo verdade. Entretanto, penso esta questão com os olhos de um historiador, educador, filho e, num futuro não tão distante, de pai. E observo no meu cotidiano que as famílias, de forma geral (ainda que generalizações sejam perigosas) estão perdidas. Falta um norte, um rumo.
Conto nos dedos de uma mão o número de casais que conheço com anos de união que aparentam felicidade. Também conheço poucos filhos que têm com os pais o tal "diálogo aberto", tão em voga. A mim, parece-me o contrário. Os alunos dão a impressão de uma carência absurda, tanto que pequenos e até despreocupados gestos de atenção, não raramente, servem para a conquista de uma amizade que beira a admiração. E observo esse cenário, ao longo dos últimos anos, reiteradamente, seja nas tão criticadas escolas públicas ou nas badaladas particulares.
A solução para isso claro que não tenho. Se a tivesse, rodaria o país e quiça o mundo a palestrar. Porém, quando observo a comoção que um caso como este da menina Isabella causa, tento analisar além da revolta popular ou da barbárie em si. E, posso estar absurdamente equivocado, mas vejo um casal - pai e madrasta - de uma frieza espantosa, uma mãe que não me convenceu no seu drama em nenhum momento (o que eram seus parentes tirando fotos com artistas ontem???), demais familiares sem firmeza nas convicções e, principalmente, vejo uma população que abraçou uma causa cumprindo o papel de júri e juiz, chegando ao cúmulo de atirar pedras em carros ou tentar invadir prédios.
Talvez quem critique ou condene publicamente, não se analise. Não tenho dúvidas que existem milhares de outras Isabellas espalhadas por aí, vítimas inocentes de um contexto. Vivas. Por enquanto.












