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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Dilma não é Lula

Quando Obama estava prestes a ser eleito nos Estados Unidos, escrevi aqui que, possivelmente, haveria uma grande decepção, em virtude da expectativa exagerada - e até certo ponto "messiânica" - que se criou com a sua iminente vitória.

No Brasil, algo parecido aconteceu quando Lula foi eleito, em 2002, ainda que em menor nível, já que o ex-operário nunca contou com a simpatia da imprensa que contou Obama ao vencer. Mas, havia um clima de otimismo geral e expectativa de mudanças que, obviamente, soaram decepcionantes num primeiro momento e que foram, aos poucos, adequando-se à realidade, culminando com uma aprovação maciça ao final do governo.

Dilma não está cercada por tantas expectativas. Pelo contrário, tem muita gente por aí apostando (torcendo) por seu fracasso. Aposta-se que seu governo será uma continuidade do de Lula e a dúvida é como ela lidará com os aspectos políticos do cargo, já que até então sua carreira foi construída com ênfase na qualificação técnica.

Imagino que Dilma fará um bom governo. Já conhece a máquina e os bastidores há oito anos, tem maioria no Senado e na Câmara - ainda que não seja lá muito firme - o país vive um otimismo pouco comum à sua história e o contexto global, apesar da crise nos Estados Unidos, não é de todo ruim. Pelo contrário, ainda há muito espaço para desenvolvimento, tanto no mercado interno quanto no externo, além de muitos, muitos problemas a serem resolvidos.

E há, além de todos os problemas conhecidos - saúde, educação, segurança, etc... - um novo, que se avizinha urgentemente, que é a Copa do Mundo de 2014, cujas obras estão pra lá de atrasadas. Infelizmente, a tendência é que a farra com o dinheiro público seja a tônica desse processo, porém o atraso já é tão visível que mesmo liberando verbas a rodo, é bem possível que uma grande parcela do previsto não fique pronto a tempo. Minha esperança é que dessa gastança sem limites fique, ao menos, algum legado estrutural às cidades que sediarão o evento, ao contrário do Pan, no Rio de Janeiro, que pouco ou nada deixou.

Dilma tem enormes desafios pela frente. E, quando titulo essa coluna com "Dilma não é Lula", algo, aparentemente, óbvio, é apenas para firmar uma posição que será sempre cruel com ela. Inevitavelmente, será comparada a seu antecessor e padrinho político. Entretanto, Dilma não tem a trajetória, nem o carisma e muito menos o apelo popular de Lula. Sendo assim, não tenho a menor sombra de dúvidas que daqui um ano, ela não terá a aprovação com a qual Lula está se despedindo do governo. Mesmo que, veja só, esteja fazendo um governo melhor.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Skavurska! - parte 2

Uma das manias do brasileiro é criticar o serviço público. Apesar disso, muita gente quer se tornar um funcionário de Estado, vide as salas de cursinhos cheias país afora e a quantidade imensa de inscrições para qualquer concurso.

Alguns, infelizmente, gostam de falar mal repetindo os estereótipos de que o servidor público não faz nada e ganha muito. E gostam de exaltar a iniciativa privada, como se esta fosse sinônimo de eficiência e qualidade. Não é. Sabemos que não é, mas parece que para algumas pessoas admitir isso é como cortar a própria carne.

Já contei uma vez aqui dos meus problemas com a NET. Eu até gosto da operadora, sou cliente há quase cinco anos, porém foram incontáveis as vezes que tive problemas. Agora, estou diante de mais um, quase inacreditável de tão banal e fácil resolução.

Há cinco meses mudei de endereço. Solicitei à NET que fizesse a nova ligação. Paguei R$ 40 de taxa - um absurdo - por um procedimento que durou menos de meia hora. Apesar disso, ainda louvei a rapidez, já que a instalação ocorreu apenas um dia após minha solicitação.

Se esta parte foi rápida, a relativa a cobrança das faturas entrou num daqueles círculos viciosos envolvendo as empresas, que se me contassem eu não acreditaria. Sempre recebi as faturas pelo correio, até com certa antecedência. No novo endereço, porém, isso não aconteceu. Chega a data do pagamento e tenho que buscar a fatura diretamente na NET, pois não a recebo.

Estou há QUASE SEIS MESES SEM CONSEGUIR RESOLVER ESSE PROBLEMA. Já fui várias vezes até o escritório e nada de resolução. Um belo dia enviaram-me uma carta dizendo que a cobrança estava sendo feita pelo banco. Balela. Eu tinha certeza que nada estava sendo cobrado desta maneira. Fui a NET com a tal carta na mão e a atendente ainda teimou comigo por alguns minutos que a cobrança agora era bancária.

"Eu não pedi para colocar nada no banco", tentei argumentar. "O banco está fazendo isso sem a autorização dos clientes", respondeu ela. "Hã? Como assim, eles não podem fazer isso. E, no meu caso, não fizeram". Após insistir, a jovem recorreu ao sistema e - voilá - descobriu que realmente meu cadastro não pedia a cobrança bancária, mas sim o envio da fatura pelo correio. Sem graça, pediu desculpas e disse que o problema seria sanado.

Isso faz três meses.

Depois disso, ainda voltei outras vezes para retirar a fatura, já que ela continuou não chegando. Ainda reclamando, fui conduzido a falar com outra pessoa, que iria resolver. Não resolveu. Assim que conversamos, ao menos, enviou-me a fatura por email, porém depois também nem isso.

Parece piada, não? Quase seis meses para se resolver um problema ínfimo desses e a incompetência deles não permite. Meio ano sem conseguir enviar uma fatura pelo Correio! Não, o problema não é do Correio, pois eu recebo normalmente diversas outras correspondências.

Está aí a NET, assim como as operadoras de telefonia e outras tantas da infalível e eficiente iniciativa privada que não deixam mentir: enrolado mesmo é o funcionalismo público.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

The Walking Dead - episódios 04, 05 e 06

Esta crítica contêm spoilers.

Ao comentar os três primeiros episódios de The Walking Dead, manifestei minha preocupação com os rumos da série, após o início brilhante, seguido de outras duas partes que não acompanharam o êxito inicial. Felizmente, meus temores não se confirmaram e o que nos foi oferecido na seqüência foi um material de altíssimo nível, intrigante, emocionante e desafiador.

O episódio 4 teve como ponto de partida a frustrada missão de resgate de Merle. Além de ter ido em busca do irmão de Daryl, Rick tinha como objetivo maior - pelo menos, assim justificou - recolher a sacola de armas que deixara para trás após a fuga desesperada assim que chegara a Atlanta e se refugiara no tanque.

Como vimos, Merle não estava mais lá, apenas a sua mão. Uma rápida busca nos revelou que ele escapou do prédio, após ter cauterizado a ferida num fogão. "Meu irmão é o cara mais durão que eu já conheci", diz Daryl, orgulhoso, ao ver que, além de suportar uma dor incalculável, Merle fora capaz de matar alguns zumbis em sua fuga, mesmo com apenas uma mão. Estranhamente, porém, devo dizer que me surpreendi como Daryl, no restante do episódio, e nos dois seguintes, parece ter simplesmente se esquecido do desaparecimento do irmão, a não ser por um breve momento de revolta no acampamento.



A busca pela sacola de armas revelou um novo grupo de personagens, que primeiro sequestra Gleen e depois desafia Rick e seus companheiros. A tensão criada no pré-conflito dos dois grupos foi bastante interessante e eficiente. Para nossa surpresa, a facção comandada por Guillermo não se tratava de rebeldes em busca de sobrevivência no caos, mas sim generosos seres humanos, que mantinham, em meio as dificuldades, um asilo em pleno funcionamento. A entrada em cena da vovó, interrompendo o crescente clima de tensão e expondo a verdadeira face do lugar, soou bem como uma metáfora da mãe que põe seus filhos no devido lugar.

Apesar disso, o grande momento do quarto episódio foi o ataque ao acampamento, enquanto Rick e seus companheiros retornavam. Ainda que não tenha sido explícito, creio que a invasão dos zumbis tenha sido obra de Merle, já que o furgão que levara Rick e seu grupo à cidade, desaparecera. Um tanto quanto forçado imaginar que ele conseguiu transportar e "soltar" tantos deles em torno do acampamento, porém seria uma vingança natural, principalmente levando-se em conta que ele não sabia do retorno de Daryl e outros para salvá-lo.

A invasão do acampamento terminou ceifando a vida de vários personagens, além de ter colocado em xeque a segurança do lugar, forçando-os a tomarem a difícil decisão de partirem e, com isso, novamente separarem-se. Entre as baixas, a mais emocionante foi a de Amy, cujo destino, confesso, surpreendeu-me. Não foi apenas sua irmã que clamou por sua volta, também lamentei o passamento da personagem.

O quinto episódio deu seqüência a atormentante despedida de Amy, nos braços da sua irmã Andrea, que a amparou durante toda a madrugada e até o momento que a transformação em zumbi se concretizou. Nesse momento, ela sentiu a irmã realmente "morta" e a decisão de atirar em sua cabeça foi a de libertá-la, algo que James não foi capaz de fazer com a esposa.

Outra vítima do ataque foi Jim, que desde o episódio anterior, já dava sinais de demência, dizendo coisas sem sentido ou cavando buracos a esmo, que depois serviram como ponto de partida para o enterro das vítimas. A intenção de salvar Jim gerou um pequeno conflito no grupo, mas serviu também como o estímulo necessário para abandonarem o acampamento e irem em busca de uma suposta segurança em instalações militares que ainda pudessem estar resistindo.

Uma vez mordido, todos tinham consciência que o estado de Jim era irreversível. Só que em situações limites como as vividas pelos personagens de The Walking Dead, o limite entre a vida e a morte pode residir em se estar motivado ou não. Encontrar uma base militar já seria difícil, encontrar e ainda curar Jim era algo impossível, porém, esse fio de esperança foi o condutor pelo qual Rick convenceu seus companheiros, ainda que ressabiados, a levantar acampamento.

Antes de partir, Rick deixou instruções para James e seu filho, reforçando a hipótese que o personagem retornará na próxima temporada. No caminho, como era de se esperar, Jim não resiste e, antes que se transforme num zumbi, pede que seja abandonado pelo grupo. Ao contrário de Amy, não vemos sua morte, mas é improvável supor que ainda reaparecerá.

Sobre a carava, aliás, dois momentos me chamaram negativamente a atenção: a primeira, a facilidade com que Daryl acompanha o grupo, renunciando, a princípio, da vontade de ainda tentar salvar o irmão; a segunda foi no abandono de Jim, cuja parada do caminhão havia sido propiciada por um problema na mangueira, que poderia ser resolvido, talvez, se houvesse um posto mais adiante, algo que parecia. Entretanto, no mesmo instante, a situação crítica de Jim monopolizou as atenções e, em seguida, todos arrancam com os carros sem problemas, incluindo o caminhão.

O fim do quinto episódio e início do sexto, nos apresentou o Dr. Jannes. Acho que muita gente se lembrou da Iniciativa Dharma na hora que o vídeo da gravação do médico surgiu na tela, com o relato das suas experiências. Isolado num complexo, o doutor serviu como tábua de salvação a Rick e seus amigos, ao abrir a "porta da esperança" que lhes permitiu escapar com vida de um iminente ataque de zumbis.

Outra parte do episódio que me lembrou Lost foi, é claro, a contagem do relógio, que aqui também guardava um segredo. Nesse caso, porém, a revelação foi rápida. Antes de descobrirem que Jannes cansara da vida e explodiria junto com o complexo, Rick e toda a sua turma gozaram de bons momentos, alimentado-se bem, bebendo vinho e tomando um demorado banho quente. Esta foi, aliás, a segunda cena de banho em apenas seis episódios - a anterior fora de Rick, James e seu filho - servindo para ilustrar o fecho de um momento de tensão e a "purificação" dos personagens. Todos se divertem, exceção feita a Shane, que a cada momento se desespera um pouco mais com a perda da atenção de Lori e hesita entre a felicidade de ter o amigo Rick de volta e o arrependimento de tê-lo salvo a vida, como nos é mostrado, na reconstituição da cena do hospital, do início do episódio um.



"Esse é o nosso evento de extinção", informa o resignado Dr. Jannes, enquanto explica ao grupo o funcionamento de suas máquinas, de como outros focos de resistência foram destruídos e de como o zerar do relógio colocará fim ao prédio. Desesperados, já que ainda não querem desistir de lutar pela sobrevivência, Rick convence Jannes a libertá-los momentos antes da explosão. Antes de partir, entretanto, o doutor cochicha algo no ouvido no policial, algo que é imperceptível aos telespectadores, um segredo dos dois que poderá - ou não - nos ser revelado futuramente.

A explosão que destrói o prédio, estranhamente, não causa qualquer dano aos veículos estacionados em frente. Sendo assim, todos podem embarcar e seguir um novo caminho. A primeira temporada se encerra num nível bastante alto e as perspectivas para a segunda são as melhores possíveis. Contratempos envolvendo a demissão de roteiristas - espera-se - não devem atrapalhar o desenvolvimento do projeto de Darabont. As vendas da graphic novel dispararam, mas continuo sem intenção de conhecê-las, pelo menos por ora. Seguirei assistindo a série sem nenhuma informação externa. The Walking Dead deve ter 13 episódios em sua segunda temporada e desde já começa a contagem regressiva para conhecermos mais desse universo fascinante dos zumbis num mundo devastado, um tema que parece batido, mas que pode oferecer muito, principalmente quando foca no resto de humanidade que ainda resiste em meio ao caos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Lula e o Wikileaks

Lula alfineta a imprensa, que não cobra liberdade de expressão do caso Wikileaks e sempre são tão alertas contra qualquer "perigo", mesmo imaginário, às liberdades no Brasil, Venezuela, Cuba, etc...

Bem humorado, Lula tocou no ponto certo.

E depois ainda tem gente que diz, após oitos anos, que o Lula é burro.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Três anos de blog

Hoje, o Euforia Melancólica completa três anos. Começou em 4 de dezembro de 2007, do desejo de escrever quando tivesse vontade, sobre assuntos que me interessavam e, a partir da formação histórica, deixar um certo "registro" de coisas que, fatalmente, a memória esqueceria.

Dizem que um blog é um filho, então, devo dizer, sou um pai ausente. Até gostaria de manter uma constância nas atualizações, porém nunca consegui. Como é um blog puramente pessoal (nem a publicidade do próprio Google coloquei até hoje), este meu filho acaba, às vezes, sendo "esquecido" em meio a tantos outros compromissos.

Acho que isso mudará no ano que vem. Estou passando por mudanças que, imagino, me darão mais tempo para investir no Euforia em 2011. Não tenho ilusões de ganhar dinheiro e viver de blog, entretanto acredito que há um espaço aí para ocupar e ampliar essa rotina de escrever, contribuindo, inclusive, para melhorar outras atividades da minha vida.

As melhores experiências desse período foram, sem dúvidas, a possibilidade de exercitar a crítica e a escrita, além do contato com pessoas que se tornaram leitores do blog ou dos quais eu me tornei leitor.

Com três anos, já sabe falar e andar, portanto, feliz aniversário ao Euforia Melancólica!

domingo, 21 de novembro de 2010

The Walking Dead - episódios 01, 02 e 03


Esta crítica contêm spoilers.

Eu imagino que o Frank Darabont tenha uma pontinha de frustração. Em 1994, ele surpreendeu o mundo com um filme absolutamente fantástico, chamado Um Sonho de Liberdade. Poderia ter sido a grande obra do ano (e, para muita gente, foi). Porém, para o "azar" de Frank, 1994 foi também o ano de dois dos mais importantes filmes da década de 90: Forrest Gump, grande vencedor do Oscar de 1995, que se tornou um fenômeno pop; e Pulp Fiction, que além de também ter se tornado um fenômeno pop, passou a integrar quase todas as listas dos melhores filmes da história. Darabont, coitado, "ensanduichado" entre esses dois, acabou sendo ignorado até mesmo na indicação de diretor ao Oscar.

Cinco anos mais tarde e Frank Darabont ressurgiu com outro filme acima da média. Emocionante e muito bem construído, À Espera de um Milagre, assim com Um Sonho de Liberdade, marcou seu momento na história do cinema, mas não chegou ao êxito que talvez merecesse. No Oscar de 2000, por exemplo, acabou derrotado por Beleza Americana, que caiu nas graças da crítica estadunidense e da Academia de Hollywood. Beleza é também um ótimo filme, e ainda havia entre os concorrentes O Informante, para mim o melhor deles.

Assim, suponho que ele tenha uma certa frustração por ter feito dois filmes tão bons em anos que outros fizeram obras tão boas ou melhores, diminuindo, em parte, a força e a repercussão de seu trabalho. Apenas a título de comparação, usando apenas o Oscar como parâmetro, tanto À Espera de Um Milagre quanto Um Sonho de Liberdade são infinitamente superiores a Paciente Inglês ou Quem Quer Ser Um Milionário?, filmes que ganharam muitas estatuetas em anos de concorrência não tão acirrada.

Especulada esta frustração que eu imagino que ele tenha, vejo com alegria que Darabont retornou aos noticiários com a produção da série The Walking Dead, baseada na graphic novel do mesmo nome. Alardeada como a série que pode ocupar o lugar de Lost no coração da cultura pop, estreou com sucesso nos Estados Unidos, garantindo, após a exibição de três episódios, uma segunda temporada, possivelmente a partir de outubro de 2011, com mais treze.

Não li os quadrinhos, mas não é algo que me preocupe. Ter lido poderia tornar a experiência de assistir a série mais rica, porém são veículos diferentes e que devem funcionar mesmo sem conjugação. Mesmo quem nunca leu a graphic novel deve poder compreender perfeitamente a série e isso, obviamente, é algo que os produtores têm exata noção.

Vi os três primeiros episódios, que somam, portanto, 50% da primeira temporada. Gosto de filmes de horror, de zumbis (que, dizem, é a nova aposta de Hollywood, pós vampiros), apesar de não ser exatamente um fã. E gostei do que The Walking Dead mostrou nesse começo, porém considerei o episódio piloto - o único dirigido por Darabont - muito superior aos dois seguintes, o que me gera dúvidas em relação a qualidade do que virá pela frente.

No primeiro episódio, fomos apresentados a Rick, um policial que surge, em suas primeiras cenas, atirando na cabeça de uma criança-zumbi, o que mostra que a série não fará concessões ao mostrar situações limite. Após ser baleado num tiroteio, Rick é internado e, ao despertar do coma, depara-se não apenas com o hospital destruído, mas também toda a cidade, na qual se exibem, além de prédios e carros destruídos, centenas de corpos espalhados pelas ruas.

O ponto de partida é exatamente o mesmo de Extermínio, de Danny Boyle, um ótimo filme do gênero. Como Rick conseguiu ser o único sobrevivente no hospital, ainda mais estando indefeso, é algo que a série não explica. Assim como também não é explicada a origem dos zumbis. Acredito que estas serão duas questões que ficarão sem respostas e nem acho mesmo que elas sejam necessárias.

Perdido em meio ao novo mundo com qual se depara, Rick chega até a se questionar se está mesmo vivo ou se está sonhando. Em busca da esposa e do filho, é acolhido por James, um senhor que tenta sobreviver ao lado do filho, enquanto é corroído pela dor de ver a esposa transformada em zumbi vagando pela rua defronte sua casa. James e seu filho são ótimos personagens e devem retonar em episódios futuros. Talvez o melhor momento do primeiro episódio tenha sido protagonizado justamente por James: o treinamento de sniper na janela, hesitando entre matar a esposa ou não, entre livrá-la (ou seria livrá-lo?) do sofrimento.

James, entretanto, é um coadjuvante. A série é protagonizada por um triângulo amoroso que, por enquanto, ainda não está totalmente revelado aos personagens: Rick, sua esposa Lori e seu parceiro policial, Shane. Aliás, o início, a la Tarantino, numa conversa na patrulha comendo hamburguer e discutindo relacionamento, estabelece a base para que conheçamos os três e saibamos dos problemas conjugais. Nesse sentido, The Walking Dead deve repetir aquilo que muito se falava - e se falou, principalmente após o término - de Lost, ou seja, que não era uma série de ação ou mistério, mas sim sobre pessoas. Na obra de Darabont, os zumbis são um pretexto, um pano de fundo no mundo devastado, para contar a trama de pessoas em busca de sobrevivência, convivendo com as diferenças, limitações e equívocos. Sendo assim, o tom do episódio piloto indicou muito mais uma série dramática que de horror.



Curiosamente, esse tom não foi mantido no segundo episódio, voltando à tona, não com a força do piloto, no terceiro. No episódio 02, o mais fraco até agora, o foco é na ação e na apresentação de novos personagens, vários deles. Acho que essa necessidade/opção gerou muito material para pouco mais de quarenta minutos e o ritmo até certo ponto contemplativo do primeiro virou rapidez no segundo. Particularmente, não gostei da fuga do tanque até a loja e nem do que veio depois. Não que não goste de cenas assim, é que achei as de The Walking Dead exageradas e até certo ponto repetitivas quando comparadas a muito do que já vimos por aí. Rick saiu da condição de policial para quase super-homem, seu novo amigo Glenn é não apenas um cara esperto que conhece os atalhos, é também um motorista de primeira linha e os zumbis me soaram palermas demais, ao terem tanta dificuldade, mesmo estando em dezenas, de quebrarem as portas de vidro da loja, assim como as portas e grades com cadeados. Falando em cadeado, a chave da algema caindo no ralo também foi um clichê conveniente e desnecessário. E, apesar da atuação convincente, não gostei muito de ver, mais uma vez, o Michael Rooker (Merle) fazendo papel de maluco.

No terceiro episódio. o ritmo foi mais semelhante ao do primeiro, centrando as ações no reencontro de Rick com sua família no acampamento, o desconforto de Shane, talvez feliz com o retorno do amigo, mas triste por ter sido relegado ao segundo plano no papel de marido e pai que vinha ocupando para Lori e Carl. Também conhecemos o irmão de Merle e fomos informados que os zumbis estão mais próximos do acampamento, o que imagino, deve gerar novas situações de confronto, como a vista neste. Ed foi outro personagem que ganhou algum destaque, primeiro insistindo em manter chamas que poderiam denunciar o local do refúgio e depois pela briga com as mulheres no rio, que acabou levando Shane a espancá-lo violentamente. Ed, ao que tudo indica, bate e abusa da mulher e da filha, o que deve ser mais um drama a ser desenvolvido na série.


Os personagens, é claro, ainda estão muito crus. Exceção feita a Rick e a marcante passagem de James no primeiro episódio, os demais ainda são superficiais, não foram explorados mais a fundo e nem revelaram, a não ser em pequenos momentos, suas personalidades. A esposa de Rick até o momento só gerou antipatia e o filho também não teve grandes momentos, a não ser o reencontro com o pai. Aliás, o desejo de todos voltarem para tentar salvar Merle foi um tanto quanto incompreensível, tratando-se de todo o trabalho que tiveram para escapar, tema de todo o segundo episódio. Considerei a iniciativa forçada e a justificativa da bolsa de armas e o rádio para localizar James um tanto quanto implausíveis, ainda que o objetivo seja passar uma reflexão entre o resto de humanidade e compaixão que se tenha mesmo num mundo devastado.

A pacífica concordância de Carl para que seu pai retorne à cidade foi decepcionante. Que filho, em sã consciência, ainda que seja uma criança (ou talvez por isso mesmo) aceitará com um sorriso no rosto que seu pai, apenas algumas horas depois de encontrá-lo, um pai que se pensava morto, volte ao lugar do qual acabou de escapar e no qual quase morreu?! Para justificar essa tranquilidade, os roteiristas criaram um diálogo entre Carl e Lori que beira o ridículo, mais parecendo aqueles conselhos de mãe, quando dizem que "se for para ser, vai ser".

Por fim, o clichê da mão serrada e pendurada encerrou um episódio inferior ao piloto, mas promissor em relação ao que pode vir, ainda que, torno a afirmar, tenha sido preocupante o fato dos dois episódios seguintes tão abaixo do original. Incomodou-me, também, que a série tenha sido, até essa metade, previsível. Assistindo, consegui "antecipar" mentalmente tudo que aconteceria, numa sequência que se confirmou na tela. Ainda que uma obra não precise ser revolucionária, ela precisa nos surpreender, reiventar-se e reinventar o tema que está tratando. Do contrário, pode parecer velha como a aparência dos zumbis que vagueiam por Atlanta.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Quando ligar, quero uma notícia boa

Há momentos na vida que um simples telefonema tira o chão sob seus pés. Você está caminhando, eu diria até "se arrastando", após um cansadíssimo dia de trabalho, liga para alguém em busca de uma conversinha prosaica e recebe, do lado de lá, a bomba.

Impressionante como uma única palavra, uma singela informação, tem o poder avassalador de fazer a vida passar diante de seus olhos em segundos. Ao mesmo tempo em que continua falando, mentalmente o cérebro dispara milhões de informações que levam o sujeito a rememorar, com acelerada urgência, o passado e a planejar, melancolicamente, o indesejado futuro.

Com um pouco mais de conversa, você descobre que a primeira impressão, terrível, não é tão ruim assim (por que nosso impulso é sempre pensar no pior?). Aos poucos, a adrenalina diminui, o batimento cardíaco volta ao ritmo normal e você já é capaz de organizar os pensamentos. Mais do que isso, você é capaz de organizar os pensamentos da pessoa que, triste, conversa com você.

Ao fim de pouco menos de dez minutos de conversa, você desliga o celular aliviado. Não era, de fato, algo tão ruim, ainda que esteja longe de ser bom. A vida segue o ritmo e você já se sente renovado em poder confortar quem tanto já confortou você. Mas, acelera o passo, porque o ônibus, assim como a vida, não fica esperando.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Protagonistas do nada

Na correria do cotidiano, às vezes, não percebemos a passagem do tempo em nós mesmos. Não há uma receita de bolo que determina os passos de cada um, mas o script é, mais ou menos, geral para todos: nascimento, infância, adolescência, adulto, maturidade, idoso... e morte. Muitos queimam etapas, vão antes, deixando dor nos que ficam, outros tantos praticamente não tem infância, logo a responsabilidade da vida os transforma em maduros. Há ainda aqueles que chegarão a idosos, entretanto, no fundo, nunca passarão muito de crianças.

O tempo passa depressa, hoje todos têm a sensação que os dias estão cada vez mais curtos. Graças, é claro, a incessante corrida diária de imensas responsabilidades sobre o... nada. Hã?! Sim, sobre o nada. Somos, na grande maioria, incluindo este que vos escreve, grandes protagonistas do nada. Nossas vidas são repetições diárias do que foi ontem e do que será amanhã. Escrevemos um roteiro para nós e é ele quem seguimos todos os dias. Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica a possibilidade de escrever novas páginas. É sempre mais fácil, como fazem os autores de novela, requentar histórias que você já conhece.

Mesmo passando depressa, o tempo, sobre nós, tem um efeito silencioso. Não há previsão de quando vamos morrer, adoecer, perder a disposição para certas coisas. Não saímos com um guia da maternidade, nosso manual de instruções são os pais, a família e, logo, nós mesmos e o imenso mundo de referências que vamos absorver. Entender essa passagem do tempo e como ela altera inclusive nossos sonhos e/ou objetivos, é, vá lá, uma das "belezas" da vida.

Ainda que se diga que "nunca é tarde", "sempre é hora" e outras bobagens do gênero, a verdade é que o tempo é um limitador que não está só na cabeça, está também no físico. Conforme vão se passando os anos, vai se entendendo que as escolhas não podem mais serem baseadas no impulso, na emoção... há que se ter a razão em primeiro lugar, ponderar, analisar e, ainda assim, por ser humano, cometer erros.

Num final de semana você é capaz de andar de bicicleta duas horas e, em seguida, jogar futebol por mais duas horas e ainda pedalar outras duas horas de volta para casa. Ainda é capaz de sair à noite e só retornar para casa com o dia claro. Em outro, de repente, você está cansado. Aparecem problemas de saúde que você nem conhecia e uma breve reflexão lhe expõe a verdade: você nunca mais terá um sábado como aquele.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Vício Frenético

Já fazia algum tempo que eu queria assistir Vício Frenético. Além de um diretor que eu gosto, Werner Herzog, o filme é protagonizado por um de meus atores favoritos, Nicolas Cage, e tem no elenco ainda aquela que é, na minha modesta opinião, uma das atrizes mais bonitas e/ou sensuais do cinema atual: Eva Mendes.


Vício Frenético (Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans) havia sido levado às telas em 1992, por Abel Ferrara, com Harvey Keitel. Porém, o próprio Herzog afirmou que seu filme não era um remake, frisando que nunca tinha visto o original.

Centrando a ação em New Orleans, após os efeitos do furacão Katrina, acompanhamos o policial Terence McDonagh, vivido por Nicolas Cage, salvar um detento prestes a se afogar. A heróica medida até lhe é recompensada com uma promoção a tenente, no entanto, custa-lhe também uma séria lesão na coluna, que o acompanhará pelo resto de sua vida. A partir de então, a dor vicia o policial em analgésicos e, posteriormente, em outras drogas. O desconforto perene o faz, inclusive, andar de maneira torta e a degradação física vem acompanhada também da moral. Paralela a uma investigação sobre o assassinato de uma família, Terence ainda tem que lidar com o pai que tenta se livrar do alcoolismo, com a madrasta que, por sua vez, bebe sem parar, com a desconfiança de seus colegas de trabalho e com o "caso de amor" que mantém com a prostituta vivida por Eva Mendes.



Apesar desse resumo, Vício Frenético não é um filme dramático. A trajetória do policial, de tão absurda, muitas vezes, nos faz rir. Suas atitudes absolutamente contraditórias, que confundem não só os policiais que trabalham com ele, mas também os bandidos que deveria prender, não fazem com que o espectador condene o personagem. Ao contrário, ele se envolve, a tal ponto de "torcer" pelo seu "sucesso", ainda que, pelo bom desenvolvimento do roteiro e da direção de Herzog, não se saiba exatamente o que seria isso.


Vício Frenético é Nicolas Cage. Este é um ator que realmente admiro. Quando venceu o Oscar de melhor ator por Despedida em Las Vegas, especulava-se que ele engataria uma carreira de papéis dramáticos. Ledo engano. Logo em seguida, ele se tornou um astro dos filmes de ação, emendando três belos exemplares do gênero: A Rocha, A Outra Face e Con-Air. Nos anos que se seguiram, deve ter sido um dos atores que mais filmou em Hollywood e, como quantidade raramente casa com qualidade, Nicolas protagonizou uma série de filmes horrorosos, principalmente nos últimos cinco anos. Ainda assim, em toda a sua carreira, brilhou em filmes como 8mm, Arizona Nunca Mais, Feitiço da Lua, Adaptação, O Sol de Cada Manhã e O Senhor das Armas. Muitos atores passam a vida tendo um ou dois (às vezes, nenhum) filmes do qual se orgulharem e Nicolas Cage tem, pelo menos, uns dez.


Em Vício, sua atuação é esplendorosamente intensa. Chegou a ser cotado ao Oscar, mas, injustamente, foi ignorado. Desde 2005, em O Senhor das Armas, este é seu melhor papel. A loucura do tenente Terence, incapaz de controlar o vício nas drogas, que vê seu mundo emocional e psicológico ruir junto com a decadência física, é caracteriza por Cage com um vigor que, em certos momentos, são empolgantes. Mesmo em cenas que deveriam causar repulsa, como a que tortura duas idosas, o personagem soa engraçado e/ou autêntico. E aqui ressalto a importância do diretor, que se faz um trabalho estrutural até certo ponto tradicional, conduz o filme de maneira que o ritmo não despenca e usa ainda interessantes referências de iguanas e jacarés para ilustrar os delírios de Terence causado pelas drogas.



Outro ponto importante dentro de Vício é o interessante "romance" vivido por Terence e a prostituta Frankie. Ainda que a belíssima Eva Mendes não vá muito além do estereótipo da latina sexy, seu caso com o policial é, até certo ponto, vá lá, delicado, unindo duas pessoas que parecem estar longe do ideal de felicidade da sociedade moderna, mas que parecem genuinamente felizes um com a companhia do outro, enquanto dividem heroína ou apenas conversam trivialidades. E a cena no celeiro, na qual Terence revela um "segredo" de seu passado a ela, soa como uma honesta declaração da importância que a prostituta adquiriu na vida dele.


Apesar de não ser brilhante, Vício Frenético é um filme eficiente no que se propõe. Vale, principalmente, pela atuação de Nicolas Cage. Algumas pessoas devem ter considerado o final do filme incoerente com o restante da trama. Eu vi como uma ironia. E isso só reforçou minha boa impressão sobre a obra.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Não zombem do eleitor

24 horas após a confirmação da vitória de Dilma, muita coisa já foi dita. Já teve polêmica no Twitter, por uma entre tantas manifestações preconceituosas que inundaram a rede ontem; análises precipitadas dizendo que o país está "dividido"; interpretações sobre o destino da oposição; tentativas costumeiras de se tentar diminuir a figura do presidente Lula; especulações sobre os novos nomes do futuro governo Dilma, entre tantas outras.

Gostaria de pontuar, neste post, uma delas.

Vi alguns analistas, até gente famosa, que escreve em jornal de grande circulação, dizendo que a aprovação do governo Lula, em torno de 90%, é falsa, pois Dilma foi eleita com "apenas" 56%. Pura bobagem. Chegar a essa conclusão é preguiça intelectual ou visão limitada, é só escolher. As pesquisas que colocam Lula em índices impensáveis para a maioria dos governantes são reflexos do cotidiano que o país viveu, principalmente nos últimos anos. Esse índice elevado exclui apenas o ruim e o péssimo e inclui os que consideram regular. Aprovar o governo Lula, sentir-se satisfeito com o país, é diferente de pura e simplesmente votar no candidato escolhido por ele.



Dilma Rousseff, ainda que uma técnica competente e de fazer parte do governo desde o início, era praticamente desconhecida do grande público até um ano atrás. Além disso, a pressão da grande imprensa em favor da candidatura serrista foi intensa e as denúncias contra o governo e a candidata, mesmo que muitas vezes fossem só denúncias, tiveram efeitos. Por fim, há toda uma gama de interesses, que envolve as participações de políticos locais, governadores, alianças, às vezes, não tão bem recebidas pelo público, pessoas que acreditam na pura e simples alternância de poder, tudo influi na decisão final do eleitor.

Dito isso, acreditar que 90% de aprovação do governo Lula deveria se converter em 90% de votos favoráveis a Dilma é zombar da inteligência e da independência do eleitor. É zombar da própria democracia.